Curso de Aperfeiçoamento em 2015

Fazer acontecer: Uma reflexão sobre a felicidade

6 years ago 0 1590

A busca pela felicidade parece ser um desejo intrínseco que acompanha o ser humano por toda a vida. Por ser algo tão desejável, foi discutida, estudada, dissecada através dos tempos por pensadores como Sócrates, Aristóteles, Epicuro, Kant, pelas diferentes religiões do mundo.

E por que, mesmo após tantos anos de investigação, não se tem uma resposta definitiva? Como é possível que o homem tenha chegado a entender mecanismos tão vitais como o funcionamento de uma célula e que consiga prever o movimento de astros a anos-luz de distância, e não tenha conseguido erradicar a depressão? Será que a resposta é tão complexa que não conseguimos formulá-la?

Observemos a vida do João. João nasceu e chorava quando sentia algum desprazer como fome, frio e dor física. Assim, a felicidade para João era algo extremamente simples e atingível. À medida que João foi crescendo, essas necessidades mais básicas e primitivas foram se associando a outras. João parava de chorar apenas ao ser pegado no colo pela mãe. Não tinha fome, não tinha nada. Mas era bom estar no colo dela. João nasceu precisando apenas de leite e calor. Agora ele precisa da mãe também.  Da mãe, do resto da família, dos amigos. Antes ele precisava apenas de comida e casa, depois precisou de dinheiro, de cartão de crédito, de emprego, de estudo, de carro.  Assim, ele foi criando conexões onde antes não existia e evoluindo para necessidades maiores que antes não existiam. Isso aconteceu porque, da necessidade da mãe, ele subiu mais um degrau, generalizou, e percebeu que as pessoas próximas a ele provinham comida e conforto quando precisava, logo, fazer parte de um grupo não era má idéia.

Chegou uma hora em que João já tinha se habituado a ter comida e proteção abundantes (pois o grupo/família provinha) e como ele foi crescendo e aprendendo novas coisas, João cresceu em complexidade, além de tamanho, começou a ter novas necessidades, umas úteis outras nem tanto.  “A gente não quer só comida” e é por isso que queremos ficar brincando um pouco mais quando a mãe chama para a janta. Ao brincar, João fortaleceu o relacionamento com o grupo, e isso trazia uma sensação muito gostosa de sentir, semelhante à de quando estava com fome, e tinha leite disponível.  Com 5 anos, João fez um escarcéu porque queria  ter os brinquedos legais que os amigos tinham. Com 7 anos, ficou no pé do pai  até aprender a ver as horas, pois todos já sabiam. E aprender era tão maravilhoso! João queria que os adultos vissem as suas conquistas, notassem o que ele tinha aprendido a fazer.  Aos 10 anos, sonhou em ser o melhor jogador de futebol da escola, e treinou muito para isso. Já tinha aprendido que fazer gol trazia muitas coisas legais, o aplauso da torcida, o sorriso dos pais, os amigos mais legais.  E junto com isso, vinha um sentimento muito gostoso que ele nem sabia explicar. Mas ele queria senti-lo todo dia! Depois de um tempo, conquistar coisas, já era gostoso por si só. Não precisava mais dos aplausos e dos sorrisos. Tanto que jogar vídeo game era gostoso, mesmo sozinho.

Quando João era criança, ele sabia o que o deixava feliz! João viveu uma infância muito boa. Teve muitas das coisas que quis. Aprendeu com a vida, que os outros seres humanos que fizeram parte de sua vida, eram pessoas confiáveis, se fizesse como eles faziam, seria feliz sempre. E sem saber, aprendeu a copiar. E virou um excelente copiador!

Fez certa faculdade porque era o que dava dinheiro. Comprou um carro novo quando o vizinho comprou. Casou-se porque já namorava há quatro anos. E num dia, insone, se perguntou porque que não estava feliz. Fez tudo o que tinha que fazer, mas aquela sensação gostosa, que chamavam felicidade, antes duradoura, agora, as raras vezes que sentia, passava rápido e logo evaporava. Roberto, seu colega, parecia tão melhor do que ele, em tantos aspectos… chegou a comprar o mesmo livro que viu sobre a mesa de Roberto “10 passos para uma vida feliz”, mas a fórmula não funcionou com ele. Pensava: “Tanta gente passa fome, tanta gente desempregada e doente… e eu, jovem e saudável, me sinto velho e fraco”.

Um dia João e sua esposa resolveram plantar um jardim no quintal de casa. Era uma tarefa simples, João queria mais era terminar logo e ir assistir ao jogo na TV. Mas João vivenciou algo inesperado, que ele nunca esperaria de uma atividade tão simples e fácil. Enquanto estava no jardim, o tempo passava e ele nem via. Cuidar do jardim com a esposa, era gostoso como brincar na rua. Não sentia fome, não vinha preocupação na cabeça enquanto ele estava lá. As flores que plantava pareciam-lhe ter mais beleza do que quando comprava na floricultura. Quando os amigos o visitavam e elogiavam o jardim, era como fazer o gol, o sorriso vinha fácil.

João, inteligente como era, já foi pensando em outras coisas que deveriam ser gostosas, e ficou viciado nessa busca. Aos 30 anos, andou de skate, aprendeu a tocar piano, fez curso de culinária, surfou, pedalou, pulou de pára-quedas, fez aquela viagem de mochilão com a mulher. Qualquer esforço valia a pena para repetir aquela sensação. Percebeu que se sentia extasiado ao fazer coisas. A sensação não chegava antes ou depois, mas na hora certa em que estava fazendo as coisas, realizando, construindo. Simplesmente fazendo!  Leu que era a tal da endorfina, o hormônio do prazer. Era responsável pela sensação gostosa que ele sentia ao fazer algumas coisas. Era ela o tempo todo, e ele nem sabia! Quando brincava com os amigos, quando aprendeu a ver as horas, quando fazia os gols, quando jogava vídeo game.  Era só fazer essas coisas, e ela estava lá! Nada poderia tirar seu humor, a saúde melhorou, a insônia acabou. Até o sexo com a esposa melhorou!

Depois de um tempo, notou que a sensação gostosa vinha com mais intensidade ao fazer coisas novas! Repetir o que já sabia fazer sempre do mesmo jeito, era como copiar os outros… era bom por um tempo. Mas só por um tempo.

Descobriu também outra coisa: ser útil às outras pessoas era bom também! Nos finais de semana, saía na rua e ensinava às crianças as melhores jogadas de futebol que tinha aprendido na idade delas. Pagou um almoço para um rapaz que pedia no semáforo e, imaginando a alegria do rapaz, sentiu-se feliz por isso, como se ele mesmo fosse por um segundo o rapaz.

O que João aprendeu com a vida, foi que a felicidade é feita por momentos, momentos nos quais se faz coisas e não ficamos esperando as coisas acontecerem. Apenas nós mesmos somos capazes de fazer a felicidade. Ganhar é bom, mas conquistar é melhor ainda!

A nossa ciência do comportamento é uma ferramenta capaz de nos ajudar a entender quais são as coisas que podemos fazer para atingir esses momentos, que devem ser para todos nós. Todos querem viver uma vida recheada de conquistas, realizações e momentos marcantes. Uma vida bem vivida.

 

Fernanda Cardoso Fraga Fonseca, psicóloga da equipe INTERAC

Teste vocacional funciona?

6 years ago 0 3024

Os testes vocacionais se tornaram populares na década de 60 e foram largamente utilizados. Alguns testes indicavam nomes de profissões, o que dava a falsa ilusão que se o jovem fizesse aquela profissão indicada em seu teste teria garantia de sucesso profissional. Alguns jovens ficavam ainda mais angustiados com o resultado, pois não gostavam da profissão indicada no teste e isto os deixava ainda mais confusos.

Em 2002 alguns destes testes foram considerados desfavoráveis por estarem desatualizados e foram proibidos de serem usados pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia). Atualmente existem alguns testes psicológicos (personalidade, aptidão e interesses) que são utilizados no processo de orientação profissional (e considerados favoráveis pelo CFP), mas eles sozinhos não são suficientes. Os testes psicológicos devem ser utilizados em conjunto com outras técnicas de orientação profissional e de carreira.

FAZER SOMENTE O “TESTE VOCACIONAL” É SUFICIENTE PARA ESCOLHER A PROFISSÃO?

Para proporcionar um resultado positivo para o jovem, os testes psicológicos devem estar inseridos em um trabalho completo de orientação profissional e serem usados com muito critério e somente por psicólogos.

O que traz resultado e funciona é o processo de orientação profissional e de carreira onde o jovem passa por todas as etapas do desenvolvimento profissional através de metodologia específica e consegue por si mesmo fazer uma escolha profissional mais consciente e segura.

Pode-se comparar as promessas de escolha da profissão SOMENTE com testes àquelas de “emagreça dormindo”. Atraentes, mas, improváveis!

 

“TESTE VOCACIONAL” DE INTERNET FUNCIONA?

Uma avaliação comportamental de qualquer natureza só é válida se houver uma devolutiva de um profissional especializado. É através da devolutiva que o cliente entenderá o propósito daquela avaliação. Isto vale também para outros instrumentos oferecidos pela internet.

Não existe milagre, quem quer escolher bem a profissão precisa comprometer-se com o processo, isto é, procurar autoconhecimento, pesquisar, conversar com pessoas e se não conseguir sozinho procurar ajuda profissional.

Claudia Carraro – Psicóloga da equipe INTERAC

 

O que te move?

6 years ago 0 1417

Uma reflexão comportamental sobre motivação

O assunto nunca sai de moda: como trabalhar a motivação das pessoas? Por que não me sinto motivado para uma coisa ou outra? Para pensar em respostas para essas e outras perguntas, inicialmente precisamos compreender como funcionam as OPERAÇÕES MOTIVADORAS. Explicando de forma bem simples, nós, analistas do comportamento, acreditamos em dois tipos básicos de operações que motivam as pessoas:

1)      Imagine uma situação em que você está há muito tempo procurando alguém com quem se relacionar e acaba conhecendo uma pessoa muito bacana que mora há 500 km de distância. O esforço para se encontrar com seu amor será um problema pequeno a depender do bem que te faz estar com essa pessoa. Temos aí uma grande motivação em vencer a distância para passar momentos felizes com alguém. Outro exemplo: depois de uma longa caminhada, você é capaz de qualquer coisa para conseguir uma garrafa de água para beber. Em termos mais técnicos, quando alguém sente privação de algo importante, tal como o afeto, por exemplo, os comportamentos (esforços) necessários para obter aquilo são realizados sem tanto pesar.

2)      Outro tipo de situação que envolve motivação pode ser exemplificado assim: o dono de uma loja diz aos vendedores que está à beira da falência e que precisará demitir funcionários caso as vendas não melhorem neste mês. Provavelmente alguns dos vendedores submetidos ao controle aversivo (possível desemprego) passem a atender mais e melhor os clientes e procurar realizar mais vendas. Neste caso, podemos dizer que esses vendedores aumentaram sua produtividade motivados pela ameaça presente de desemprego. Assim também seria no caso de estar em uma sala fechada, sentindo calor e tentar fazer um aparelho de ar condicionado funcionar, você lança mão de todos os seus conhecimentos e esforços para se livrar da situação aversiva. A pessoa, nestas situações, costuma se queixar mais, pode ter variações de humor, embora continue firme com os esforços.

Enfim, de forma geral muito do que fazemos se explica por essas duas operações. Poderão surgir perguntas do tipo: “E quando alguém continua fazendo as coisas da mesma maneira, mesmo quando o controle aversivo está presente?” ou “A pessoa tem a oportunidade da vida dela e não corre atrás, por quê?” Pois é… o comportamento humano é complexo, há outras questões envolvidas e a análise do comportamento tem resposta para elas, mas vamos deixar esse assunto para um próximo post.

 

Fabíola A. G. Serpa, psicóloga da equipe INTERAC

Dependência química: mitos do cigarro ao crack

6 years ago 0 3099

Nos dias atuais é comum que conheçamos alguém que faz ou tenha feito uso de alguma droga. É claro que ninguém se torna dependente de um dia para o outro, mas a linha que separa um usuário nocivo de um dependente é tênue. Um usuário nocivo é aquele que geralmente não usa droga com frequência, mas quando usa, tem algum prejuízo (biológico, psicológico ou social). O dependente químico apresenta um consumo sem controle e, portanto, associado a problemas sérios em várias áreas da sua vida (pessoal, profissional, familiar, social, etc.).

A dependência química afeta toda a família, inclusive os filhos, que são vítimas diretas do uso de álcool e drogas pelos pais. Essa exposição ambiental de crianças e adolescentes está associada a vários potenciais riscos para o desenvolvimento (problemas emocionais como ansiedade e depressão, problemas de conduta, de aprendizagem e inclusive, risco aumentado para o uso nocivo de álcool e outras drogas durante a adolescência).

Sabemos que apesar da crescente popularização das drogas em nosso país, ainda existem muitos mitos relacionados ao seu uso e consequências, por esta razão nos cabe aqui a tentativa de esclarecimento de alguns destes:

1)     O álcool ajuda a relaxar e a esquecer dos problemas

O álcool é considerado uma droga depressora do sistema nervoso central. Apesar de inicialmente provocar euforia, no final, o álcool deixará a pessoa ainda mais ansiosa e a qualidade do sono será pior do que se a pessoa não tivesse bebido. Se a pessoa estiver triste, provavelmente ficará ainda mais triste do que se não tivesse bebido. Portanto, beber para lidar com problemas, definitivamente não é uma boa escolha, os problemas que levaram qualquer pessoa ao consumo do álcool certamente serão ainda maiores assim que seu efeito acabar.

2)     Fumar maconha faz menos mal do que fumar cigarro

É difícil comparar duas drogas, mas tanto a maconha como o cigarro geram distúrbios respiratórios, como bronquite e provavelmente, câncer de pulmão, boca, esôfago e estômago. O usuário de maconha costuma reter a fumaça por mais tempo nos pulmões do que o fumante de cigarro e isso leva a irritação nos órgãos e o desenvolvimento de câncer. Além disso, a maconha é comumente fumada sem filtro e sua fumaça tem cerca de 50% mais substâncias cancerígenas e causa consideráveis alterações de memória e da capacidade mental. Portanto, o uso de qualquer droga traz prejuízos.

3)     A cocaína e o crack aumentam o poder de concentração e o prazer sexual

O uso de cocaína leva a uma sensação de grandiosidade, entretanto, sob efeito de cocaína dificilmente uma pessoa conseguirá ler um livro ou tomar decisões complexas. Em relação ao prazer sexual, a maior parte dos usuários deixam de lado o sexo e se dedicam quase que exclusivamente à busca de prazer produzido pela droga. Os usuários de crack restringem o convívio social e consequentemente há uma diminuição do interesse sexual. Portanto, se o objetivo é ter mais concentração ou prazer sexual, esse não é o melhor caminho, além dos prejuízos conhecidos por estas drogas ao organismo do usuário, qualquer relacionamento pela droga cultivado tenderá a maior fragilidade e infelicidade.

 

É importante saber que não existe consumo de droga sem risco à saúde; consumo equilibrado e seguro trata-se de outro grande mito. Aos que desejam e buscam ajuda, a boa notícia é que há muitas modalidades de tratamento disponíveis (psicoterapia, tratamento ambulatorial, internação, grupos de apoio) e quanto mais cedo a pessoa procurar ajuda, melhores e mais efetivos serão os resultados.

Thaís Vilela e Valdemir Euzebio, psicólogos da equipe INTERAC

Por que fazer psicoterapia?

6 years ago 0 2496

A resposta para essa pergunta se encontra na avaliação que fazemos de nossa qualidade de vida e na idéia que temos sobre para que serve a psicoterapia. Sob a ótica da Análise do Comportamento, fazer psicoterapia é submeter a própria vida, o próprio comportar-se, a um tipo de consultoria externa especializada. Em outras palavras, o terapeuta utiliza de referencial teórico específico – a ciência do comportamento – para analisar fatos da vida do cliente que estão relacionados com as suas queixas. Essa análise é funcional, no sentido em que, provavelmente, o que está presente hoje na vida do cliente exerce alguma função específica, por essa razão, continua a existir e por isso talvez o cliente sozinho ainda não tenha conseguido solucionar a questão e necessite de um especialista. A psicoterapia, nesta abordagem, é essencialmente voltada para objetivos tangíveis, acordados entre terapeuta e cliente já nas primeiras sessões. Procura-se em todos os casos identificar as variáveis responsáveis pelas queixas apresentadas e quais os comportamentos-alvo para intervenção, buscando a aquisição de novos repertórios de comportamentos (agir, pensar, sentir) que possam ser mais adaptativos ao contexto de vida do cliente. Por essa razão, na maior parte das situações em que há uma real motivação por parte dos envolvidos, os resultados são obtidos em poucas sessões. Os atendimentos em geral são realizados individualmente, mas há programas específicos para desenvolvimento de novos comportamentos que podem ser realizados em grupos.

 

Fabíola Serpa, psicóloga da equipe INTERAC